Empreendedor prefere riscos do próprio negócio a benefícios da carteira assinada

Danielle Pintor Matos, 27 anos, trabalhou por 6 anos com carteira assinada em uma fábrica. Mas após abrir seu negócio fazendo o que realmente gosta, não cogita voltar a ter patrão nem bater ponto, mesmo que nem sempre consiga, por exemplo, programar 30 dias de férias por ano.

Flávia de Maio dos Santos, 33 anos, até sente falta dos benefícios da CLT, dos quais usufruiu por 10 anos, como 13º salário, FGTS e salário fixo, mas se sente feliz como autônoma – porque, diz ela, sabe que ela está se dedicando à sua empresa e não à de outra pessoa.

As duas profissionais fazem parte do grupo de empreendedores que valorizam a independência profissional e não pensam em abrir mão da própria empresa pela suposta estabilidade de um emprego com carteira assinada.

De acordo com pesquisa do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), 6 em cada 10 empreendedores com idade entre 18 e 34 anos não aceitariam trocar a atividade que desempenham em suas empresas por um emprego formal que pagasse um salário compatível com o mercado, somado aos demais benefícios previstos pela CLT.
Da agonia, a oportunidade
Depois de trabalhar registrada por 6 anos em uma fabricante de conexões industriais nas áreas administrativa e de gestão de qualidade, durante os quais se formou em Gestão da Qualidade e Auditoria Interna ISO 9001, Danielle foi convidada para trabalhar em outra empresa, onde decidiu recusar o vínculo formal e passou a prestar serviços como consultora.

Como a empresa não ia bem financeiramente, houve redução nos serviços e ela passou a trabalhar só três dias por semana. “No primeiro dia que fiquei em casa, entrei em parafuso. E da minha agonia criei a oportunidade”, conta.

Ela teve a ideia de inovar o negócio de seu pai, que trabalha há 30 anos com vendas de produtos de limpeza. “No primeiro dia que fiquei em casa, imprimi uma tabela com alguns produtos e fui para as ruas de São Paulo. Voltei com um pedido, comprei matéria-prima, fiz os produtos e realizei a primeira entrega”, conta.
Danielle abriu uma loja na garagem da sua casa, usou uma sala para manipulação dos produtos e implantou um disk entrega de produtos para limpeza. Ela decidiu então deixar a consultoria e abriu seu próprio negócio, a Qualymp.

“Sou uma gestora da qualidade, estava me acabando para deixar em conformidade a empresa dos outros, podendo cuidar mais da minha. Então, passei a exercer o que sei de melhor, dentro da minha própria empresa. E na crise ninguém come em prato sujo nem deixa de lavar roupa e limpar a casa”, diz.

Ao se tornar microempreendedora individual (MEI), Danielle diz que “não quer ver a carteira de trabalho”. Segundo ela, demorou um pouco, mas atualmente a empresa se paga e gera lucro – parte dele é usado para investimento no próprio negócio. Ela cuida de tudo sozinha e tem uma amiga que a ajuda na divulgação.

Danielle não descarta fazer consultoria para outras empresas, mas sua prioridade é a saúde e qualidade do seu negócio. “Hoje em dia, a falta de estabilidade nas empresas e de oportunidade no mercado nos faz perder o propósito de acordar todos os dias sem saber como vai acabar, se vamos chegar no final do mês e ter salário. Considerando ainda o fato de que quanto mais você se dedica, não é você quem cresce. Claro que crescemos com as práticas e busca de informações, mas o fator principal de crescimento diante de todo o empenho do colaborador é a empresa do patrão”, afirma.

A empreendedora diz que não sente falta dos benefícios da CLT. “Quanto mais eu me esforço, maior é o meu retorno todos os meses. Não sinto a necessidade de me esforçar um ano todo e ter um reconhecimento no último mês do ano. Férias poderei me programar para que não interrompa o bom andamento da empresa. E FGTS me permito realizar aplicações mensais, proporcionais ao valor do benefício que seria depositado na minha conta, para assegurar meu futuro”, diz.

‘Chefes pilantras’

Flávia de Maio dos Santos, 33 anos, formada em hotelaria, trabalhou por 10 anos registrada em hotéis e restaurantes. Hoje ela é proprietária da Banho Essencial, onde produz sabonetes artesanais, sachês perfumados, aromatizadores de ambientes e enxaguantes bucais, todos com propósito terapêutico, e os comercializa via internet. Além disso, trabalha com terapias alternativas como aromaterapia.

Na época em que trabalhava com carteira assinada, ela conta que fazia bicos em outros restaurantes e já gostava da ideia de poder escolher seus horários de trabalho.

“O que pegou pra mim foi perceber o quanto eu gastava de energia na empresa de uma outra pessoa. Muitas vezes a equipe se esforça muito mais do que os próprios donos e isso me incomodava. Decidi que se fosse para concentrar tanta energia em um negócio, que pelo menos fosse no meu. Basicamente o que me fez desistir de trabalhar para os outros foram os chefes pilantras que eu tive”, conta.

Flavia decidiu abrir seu negócio após passar por um problema de saúde há 7 anos e descobrir a naturopatia. “Acabei me apaixonando e mudei de profissão. Fiz um curso básico de massagem para ver se gostava e depois fui para a Humaniversidade Holística fazer o curso de tecnólogo em naturopatia”, conta.

Hoje aplica técnicas como cristaloterapia (terapia com cristais), aromaterapia, auriculoterapia, entre outras. “Meu maior objetivo é fazer minha marca vingar. Nunca planejei nada disso. As coisas foram acontecendo de uma forma natural à medida que fui me interessando por elas. Mas deu certo. Meus produtos são todos artesanais e cerca de 80% deles são sabonetes”, conta.

Flavia pretende expandir seu negócio para repelentes e outros produtos de higiene pessoal, como pasta de dente, desodorante e xampu. “Ainda estou estudando e fazendo testes”, diz.

Ela reconhece que o lucro com a empresa não é suficiente para seu sustento, pois ainda tem que fazer bicos como garçonete para complementar sua renda, mas os seis dias da semana que trabalha pela sua empresa compensam pelo prazer que sente em fazer o que realmente gosta.
Faz 6 anos que ela não trabalha com carteira assinada, mas apesar de sentir falta dos benefícios da CLT como 13º e férias, não quer voltar à antiga vida de celetista.

“Sinto falta porque é mais prático me organizar financeiramente. Como autônoma tenho que incluir no planejamento a condução, comida, se eu for ficar sem trabalhar para descansar ou por doença tenho que me preparar antes porque sei que nesse tempo não vai entrar dinheiro, mas por enquanto estou mais feliz como autônoma. Com certeza não teria a mesma disposição para me dedicar a outra empresa”, diz.

Perfil dos empreendedores
De acordo com dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), a participação dos jovens entre 18 e 34 anos entre os empreendedores iniciais foi de 52% em 2015, mesma proporção de 2014. Já em 2013 e 2012, era de 38% e 33%, respectivamente.

No caso dos microempreendedores individuais, que eram 5.680.614 no país em 2015, 45% tinham emprego com carteira assinada antes de se tornar MEIs, 22% eram empreendedores informais e 8% eram donos de casa.

Com relação à idade dos MEIs, houve uma leve tendência ao envelhecimento. A média de idade do MEI em 2015 era de 38,2 anos, ante 37,3 anos em 2013. A faixa etária com maior concentração é a dos 30 aos 39 anos (32,9%), a segunda é a dos 40 aos 49 anos (23,7%), seguida dos 50 a 64 anos (16,4%) e de 25 a 29 anos (15,1%).

Principais benefícios da CLT e como é para o empreendedor

13º salário
CLT: O pagamento do 13º salário é feito em duas parcelas, com base na remuneração mensal. A lei também permite que o trabalhador receba o 13º salário com as férias.
O empreendedor não tem direito a 13º salário.

Férias
CLT: Todo trabalhador tem direito a 30 dias corridos de férias após 12 meses de trabalho, sendo que o trabalhador pode vender 10 dias delas.
O empreendedor não tem direto a 30 dias de férias. Mas ele pode tirar quantos  dias de descanso quiser e quando achar mais conveniente.

Hora extra
CLT: Se o trabalhador presta serviço ou fica à disposição do patrão além das 8 horas diárias ou das 44 horas semanais, tem direito ao pagamento da hora extra. O valor é 50% maior que o da hora normal trabalhada.
Como o empreendedor cuida do próprio negócio, ele não “se paga” horas extras.

Vale-transporte
CLT: É concedido ao trabalhador, com desconto de até 6% do salário bruto.
O empreendedor paga o transporte do próprio bolso.

FGTS
CLT: o empregador deposita mensalmente o valor correspondente a 8% do salário bruto do funcionário no Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), numa conta na Caixa no nome do empregado.

Como é autônomo, o empreendedor não precisa recolher o valor para o FGTS. Uma alternativa, para assegurar uma poupança em caso de necessidade, é investir todo mês um percentual do que ganha.

Adicional noturno
CLT: quem trabalha entre as 22h e as 5h tem direito a remuneração superior em torno de 20% à de quem trabalha no período diurno.
O empreendedor não recebe adicional noturno em caso de trabalhar na madrugada.

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